A fragilidade de Irmã Dulce era apenas aparente. A miudinha freira,
raro exemplo de bondade e amor, foi arquiteta de uma das mais
notáveis obras sociais do Brasil. Nascida Maria Rita de Souza Brito
Lopes Pontes, com 13 anos manifestou o desejo de entrar para o
convento. Na época, já inconformada com a pobreza, amparava
miseráveis e carentes. Aos 18, recebeu o diploma de professora e
entrou para a Congregação da Irmãs Missionárias da Imaculada
Conceição da Mãe de Deus, do Convento de São Cristóvão, em Sergipe.
Com os votos de profissão de fé, a já então Irmã Dulce, em
homenagem à mãe, voltou a Salvador, onde trabalhou como enfermeira
voluntária e professora de Geografia. Sem vocação para lecionar,
dedicou-se ao trabalho social nas ruas. Começou prestando
assistência à comunidade favelada dos bairros de Alagados e de
Itapagipe. Mais tarde, fundou a União Operária São Francisco,
primeiro movimento cristão operário de Salvador, e depois o Círculo
Operário da Bahia, que proporcionava atividades culturais e
recreativas, além de uma escola de ofício. Criou, em 1939, o
Colégio Santo Antônio, instituição pública para os operários e seus
filhos. No mesmo ano, ocupando um barracão, passou a abrigar
mendigos e doentes, levados depois ao Mercado do Peixe, nos Arcos
do Bonfim. Desalojados pelo prefeito da cidade, acolheu-os, com a
permissão da madre superiora, no galinheiro do Convento das Irmãs
Missionárias da Imaculada Conceição, transformado em 1960, com o
apoio do governador do Estado, que cedeu um terreno, em Albergue
Santo Antônio, com 150 leitos (hoje o Hospital Santo Antônio).
Inaugurou ainda um asilo, o Centro Geriátrico Júlia Magalhães, e um
orfanato, o Centro Educacional Santo Antônio, que abriga atualmente
300 crianças de 3 a 17 anos e oferece cursos profissionalizantes.
Vaticano reconhece irmã Dulce como venerável Voto unânime da
Congregação da Causa dos Santos abre caminho para anúncio da
beatificação de Irmã Dulce pelo papa Bento XVI Considerada pelos
fiéis como Mãe dos Pobres e Anjo Bom, Irmã Dulce foi ainda
comparada à Madre Teresa de Calcutá A Congregação para a Causa dos
Santos do Vaticano anunciou no dia 20 de janeiro, voto favorável e
unânime, de seu colégio de cardeais, bispos e teólogos, das
virtudes heróicas da Serva de Deus Dulce Lopes Pontes. Os votos
serão transmitidos ao Papa Bento XVI que poderá conceder à Serva de
Deus o título de Venerável. O anúncio foi transmitido no Brasil
pelo arcebispo Dom Geraldo Majella Agnelo e o decreto será
publicado logo após a assinatura de Sua Santidade. O título é o
reconhecimento de que Irmã Dulce viveu em grau heróico as virtudes
cristãs da fé, esperança e caridade e permite que a causa de
beatificação da freira cumpra sua última etapa: a confirmação do
milagre que deve passar pela última análise até o final deste ano.
A reunião da Congregação analisou a Positio (documento canônico
misto de relato biográfico e das virtudes e resumo dos testemunhos
do processo). A validação da Positio é considerada pelo Direito
Canônico tão importante quanto a comprovação de um milagre. O
relator desta fase foi Dom Javier Echeverria, ponente da Opus Dei.
Diferentemente da beata Lindalva, que foi martirizada e não
necessitou de um milagre para ser beatificada, a causa de Irmã
Dulce precisa cumprir todas as exigências do Direito Canônico. Com
o anúncio do título resta apenas a comprovação do milagre que é
feito em três etapas: uma reunião com teólogos, com peritos médicos
(que dão o aval científico) e, finalmente, a aprovação final do
colégio cardinalício. A expectativa é de que até o início de 2010
esta fase esteja concluída e os fiéis possam aguardar o anúncio da
beatificação. A reunião confirmou a decisão do colegiado, também
unânime, tomada no dia 15 de abril do ano passado. Os teólogos
(oito italianos e um espanhol), que estudaram a vida e as obras de
Irmã Dulce, a definiram como "a Madre Teresa do Brasil", pelas
semelhanças do seu testemunho cristão com a Beata de Calcutá, sendo
"um conforto para os pobres e um exame de consciência para os
ricos." O relator desta primeira fase foi monsenhor José Luis
Gutierrez, membro da Opus Dei. O processo de beatificação de Irmã
Dulce foi iniciado em janeiro de 2000. Em junho de 2003, a
Congregação recebeu a Positio. Na mesma época, a Congregação
recebeu os atos jurídicos e reconheceu juridicamente um possível
milagre ocorrido por intercessão de Irmã Dulce. Uma graça só é
considerada milagre após atender a quatro pontos básicos: a
instantaneidade, que assegura que a graça foi alcançada logo após o
apelo; a perfeição, que garante o atendimento completo do pedido; a
durabilidade e permanência do benefício e seu caráter preternatural
(não explicado pela ciência). Atualmente, o Memorial Irmã Dulce
guarda mais de cinco mil cartas e depoimentos que relatam curas que
os devotos acreditam milagrosas e operadas pela fé naquela que é
chamada de Mãe dos Pobres e Anjo Bom. Na Igreja Católica de Rito
Latino, o título canônico de venerável é concedido àqueles a quem
postumamente seja reconhecida a prática de virtudes heróicas em
processo formal de canonização. Antes de ser considerado venerável,
o candidato à santidade tem de ser objeto de uma proclamação
aprovada pelo Papa que reconhece sem sombra de dúvida que o
candidato viveu uma vida de virtude heróica, isto é que demonstrou
de forma excepcional a prática das virtudes teologais de Fé,
Esperança e Caridade e das virtudes cardeais da Prudência, Justiça,
Fortaleza e Temperança, dentre outras. Apenas depois de ser
considerado venerável pode o processo de canonização prosseguir
para o estágio da beatificação. O primeiro venerável de que há
registo foi o monge São Beda, no século VII, assim declarado pouco
depois da sua morte. Neste momento o Brasil tem mais três
veneráveis: Madre Teodora Voiron (Venerável por decreto de 18 de
fevereiro 1989); Madre Antonieta Farani (Venerável por decreto de
13 de junho de 1992) e Madre Bárbara Maix (Venerável por decreto de
3 de julho de 2008). Sergio Toniello/Sul Bahia News
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